sábado, 4 de julho de 2009

Michael Jackson: o ser e o nada

A morte do mito e a desconstrução ideológica de toda uma era

Um fauno dançante, um ente encantado, uma controversa mistura de ser e nada. Michael Jackson foi o mais mágico de todos os mitos artísticos já reverenciados pela humanidade. Em sua unicidade, foi controversamente múltiplo e indecifrável. Sua impossibilidade de se encadear em qualquer gênero, número, grau ou definição absoluta fez dele - em comparação direta com quaisquer outros mitos de sua ou de outras épocas - um capítulo à parte. Na música, na dança, na arte, na existência.

Não é preciso ser fã incondicional de Michael Jackson para render-se à incrível sensação de vazio e perda com sua morte. Para muitos, não obstante seus recordes e sucessos inigualáveis, Michael já estava morto antes de morrer. A grande realidade, porém, é que Michael superou todos os seus similares no desafio já conhecido de exceder a humanidade e fazer-se mito. Nenhum deles - nem Elvis, nem Morrison (meu preferido), nem Sinatra, nem Hendrix, nem Cobain, nem Curtis, nem Dean - conseguiu a extrema façanha de Michael: a transubstanciação.



É isso. Michael foi alquimista de si mesmo, um Nicolas Flamel do pop encantado dos anos 80. Se nos anos 60 e 70 Bowie, Jagger e Lou Reed ensinaram ao mundo os primeiros movimentos da mutação física com encenações e caracterizações de palco, Michael extrapolou a fórmula: transformou-se, transmutou-se, deformou-se no universo real, fugindo de sua própria imagem e afastando a possibilidade de seus seguidores saberem onde ele estava e onde poderia chegar. Tal qual o objeto de desejo freudiano, Michael fugia quando parecia conquistado, mudava quando parecia copiado, até jamais ser alcançado completamente. Consolidou-se na vida como uma cena de um filme de Buñuel: era o surreal que espelhava as aberrações e deformidades de uma sociedade patológica e amarga. O american way of life e o american dream nunca estiveram tão próximos da retratação e da destituição imagística quanto na exposição visceral e ferina de cada novo rosto criado por Michael Jackson.
Ele era o fast food e a antítese do fast food: ao contrário dos inconfundíveis e autorais hambúrgueres do McDonald’s, famosos por sua similaridade, Michael nunca foi igual, confundindo o tempo inteiro a máxima da estereotipização que requer o mundo midiático. Enquanto vários mitos precisaram morrer para que se levantassem lendas urbanas sobre a possibilidade de ainda estarem vivos e outros terem sido sepultados em seus lugares, Michael conseguiu transformar-se em "nada" ainda vivo. Por isso recorri à metáfora do existencialismo de Sartre para comentar que ele - Michael - transcendeu do ser ao nada, evaporando e diluindo-se ainda vivo.


Os grandes mitos foram decompostos pela morte física. Michael não. Em vez de decomposto, ele foi "descomposto". Desmontou-se ainda inteiro, desfez-se ainda vivo. Imprimiu a retórica da descontrução. Refiro-me obviamente às suas incríveis e absurdas mutações físicas, ora justificadas por doenças de pele, ora por aversão à sua condição de afrodescendente (o que eu não acredito), ora por uma irrefreável voracidade para se transformar no fast food man que as massas consumiam. Talvez regido por essa estranha obsessão de ser cada vez mais mito e cada vez menos gente, Michael transmutava-se e sumia, recriava-se e regenerava-se pela troca constante da imagem e do traço, desconstruindo a imagem e a face - referência ocidental para a individualidade (como dizia Delleuze, "o rosto é o Cristo"). Michael adormeceu o menino que não podia acordar para não envelhecer, mas escolheu o oposto do Peter Pan que tantas vezes lhe associaram: não era o menino de juventude eterna, mas um verdadeiro enigma a envolver, inclusive, histórias conturbadas e surreais com meninos de verdade (que, sinceramente, eu jamais acreditei terem sido abusados por ele).

O pensador francês Jean Baudrillard, um dos maiores pensadores do século passado, escreveu em sua obra clássica "A Transparência do Mal" um artigo sobre o "Transestético” onde indagava-se sobre a figura “frankensteiniana e andrógina” do astro pop. Seria Michael masculino ou feminino? Negro ou branco? Adulto ou criança? O que era, afinal, aquele ícone da cultura de massa que tão bem representou os referenciais da pós-modernidade nos nostálgicos anos 80?

Uma das características mais notórias da produção cultural dos anos 80 foi a quebra do convencional pela instituição do fake e da máxima de Andy Warhol: “Eu amo Hollywood [...] Todo mundo é de plástico [...] Eu quero ser de plástico”. Michael Jackson foi além do que o idealizador sonhou para si: ele superou o sonho de Warhol e se fez de plástico! Alquimia pura! Tornou-se o boneco da Matel que não apenas constituía o desejo de menino de customizar e ter seu próprio boneco, mas fez real a possibilidade de se transformar no próprio boneco! Michael era de plástico! Seu nariz era uma prótese, sua pele era artificial, seu cabelo era aplicado, suas roupas eram figurino de caracterização, sua passagem pelas ruas e pelas pessoas era sempre revestida de alguma aura de sobrenaturalidade. Ele era todo de plástico!




A grande explosão cultural dos anos 80 foi a cristalização dos anseios de Warhol de transformar celebridades instantâneas, de povoar a mente de toda uma geração com ícones ideológicos tirados da publicidade e do mercado de consumo. Ao contrário dos ídolos de outrora – tresloucados e fora de si, alucinados pela droga e pela catarse expressa na “fuga da consciência” – os ídolos dos anos 80 apostavam no poder lisérgico da imagem, confundindo e escapando das rotulações imediatas. Pairava sobre eles o espectro das indefinições. Eles eram e não eram. Madonna era a deusa erótica de sutiã meia-taça ou a santa dos clipes com referências divinas e crucifixos no pescoço? Prince era homem ou fauno (este chegou a abandonar seu nome e converter-se nominalmente num símbolo!)? O que eles cantavam era rock, pop, black music, dance, techno, funk... era o quê, afinal? O excesso de maquiagem das bandas, os cabelos coloridos e as roupas de visual andrógino, gótico ou punk, com elementos industriais e muito preto... o que eram, afinal, os ícones dos anos 80? Como descrever sua simbologia em palavras concretas, se a abstração lhes parecia tão pertinente?

Sobre todos eles, transcendia Michael Jackson. Muito além de toda essa ontologia inexplicável, havia a extraordinária mágica de caminhar para trás e alcançar anos-luz à frente. Foi esse homem de plástico quem celebrizou para o mundo inteiro o retrocesso como avanço.



O homem que mais se transformou, o ser mais mutante do universo pop, a referência mais esplêndida de “homem de plástico” (ou de “plásticas”) que a humanidade já conheceu está morto.


Mas ele dança todos os dias nos DVDs abertos nas ruas, lojas e praças, movendo-se sinuosamente nos palcos, trocando de cara num clipe revolucionário que funde raças e pessoas.

A sapatilha preta, as luvinhas de paetê e o estranho balé do fauno dançante estão nas ruas. Um ser mágico e inimitável segue andando para trás como se estivesse caminhando na lua.

E sabem por que isso ainda acontece? Porque ninguém jamais conseguirá acreditar que um homem de plástico possa morrer!




sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

"Please, don't go", Double You!


Banda se apresenta no Canecão e leva nostálgicos dos anos 90 ao delírio

William Narraine, o vocalista: diálogos em português fluente e carisma incomparável para conquistar a platéia afoita do Canecão

Para muitos, não passa de "údigrudi", "bate-estaca", subproduto. Os cães ladram e a caravana do Double You passa. São anos de estrada e uma repercussão fenomenal em terras tupiniquins. Tanto que a banda tem aqui na antiga "Terra de Vera Cruz" empresários brasileiros - os únicos "locais" da turma. É muita afinidade com o país, sobretudo pelo carinho confesso pela cidade do Rio de Janeiro. Tudo isso ficou claro no show da banda, realizado ontem à noite no Canecão, a mais tradicional casa de shows da Cidade Maravilhosa.

A galera carioca mais trintona e mais quarentinha não esquece as muitas noites de balada na Zoom de São Conrado, na Meio Ambiente do Alto da Boavista ou na Babilônia do Leblon - além da infinidade de bailes eletrizantes da noite suburbana da cidade - ao som de hits mega-dançantes como "Please, Don't Go", "Run To Me", "Part Time Lover" ou "Heart of Glass". E quem daquela época nunca trocou um beijo apaixonado ao som de "She's Beautifil" ou "Looking at My Girl"?

Pois é: se não tinha o engajamento ferrenho (Depeche Mode era a mais discursiva, Pet Shop Boys a mais sarcástica, New Order a mais sombria, para citar alguns exemplos) das bandas eletrônicas que a sucederam nos anos 80, o Double You dos anos 90 foi a única daquelas bandas de dance específico para pistas de boate que conseguiu a proeza de impor uma marca pessoal. Ao contrário da frieza e da impessoalidade das demais, centradas em DJs e produtores musicais que pouco apareciam ou se relacionavam com o público, o Double You atravessou a fronteira e quebrou o gelo dessa indiferença. A proeza deve-se inegavelmente ao estilo pessoal e extremamente carismático de seu vocalista, William Narraine. Além de manter contato direto com a platéia, dialogando e sorrindo o tempo todo, William dança, gesticula e comanda a audiência, além de apresentar um timbre e uma extensão de voz muito superiores aos de seus congêneres. Falar um português praticamente fluente foi a demonstração mais clara possível de proximidade com o público. Sobretudo quando afirmou que estavam todos "muito feliz" e corrigiu imediatamente o plural "felizes": ovação imediata. O respeito pela língua é o respeito pela pátria!

Não se trata de um show pretensioso: bons músicos, uma boa iluminação, um grupo dançando freneticamente coreografias pouco inovadoras de street dance e a voz marcante do mestre de cerimônias Narraine mostram força suficiente para fazer a festa. A maior inovação pode ser talvez o fato de bailarinos muito acima do peso dançarem com grande prestígio no palco do Double You. Fora isso, é Narraine quem 'larga o dedo" e solta o "pancadão pra galera", agitando a moçada com o som que balança quadris mundo afora. A banda que acompanha William é competente o suficiente para adicionar ao molho techno pitadas extra de puro pop rock, como nas leituras inspiradas de "We Will Rock You" (Queen), "With or Without You" (cantada no show na versão rock original) ou a moderninha "Open Your Eyes" (Snow Patrol). O séquito mostrou-se tão emocionado e afiado com cada uma delas quanto nas eletrizantes granadas musicais de autoria do próprio grupo. Se já nos anos 90 eles aqueceram as pistas com hits dos 70 como "Please Don't Go" e "That's the Way", por que não o fariam com outros mais recentes?

Naraine fez discurso de felicidade por estar no Rio, declarou sentir-se já "bem brasileiro", fez vários números a mais após terminar o show e ainda convidou Latino (um dos sócios da produtora que trouxe a banda) ao palco para o bis de "Please Don't Go", a mais pedida da noite. Latino ensaiou um discurso, confessou seu inglês parco, arriscou somente o refrão e alguns gritinhos de animador de festa. Tentou "entrar" no show cantando seu malfadado apê ao som de guitarra mas percebeu que, apesar da simpatia dos visitantes, não parecia muito aclamado pela platéia. Discretamente saiu de fininho e recebeu lá seus aplausos de gentileza.

Camisa azul da seleção brasileira, Narraine exalava felicidade cantando no Canecão. A apresentação do Double You mostrou músicos em grande forma (falando nisso, William Narraine não sentiu em nada o passar dos anos) e mais um desses curiosos casos onde um público acostumado com música de boa qualidade e letras mais compenetradas também pode optar por algo descartável e não menos interessante. É a máxima do pop perpetuada no ano 2000. No fundo, no fundo, somos todos como aquela Natasha do Capital Inicial: o mundo pode acabar, o que a gente quer é dançar!